Transtornos alimentares, um problema coletivo

Por Jéssica Soares e Pedro Miller.

“Eu acho que estamos vivendo em uma sociedade muito doente em relação a alimentação”, diz a nutricionista comportamental Camilla Estima. “As pessoas estão presas ao padrão de beleza. O ganho de peso é visto como uma derrota, a perda é vista como um troféu. Uma relação saudável com a comida seria comer em paz, sem preocupação de ganhar peso loucamente, comer comidas mais naturais, cozinhar mais. Ficar sempre de dieta distancia a pessoa da percepção real de fome e saciedade”. A National Eating Disorder Association (NEDA) calcula que 35% daqueles que “vivem de dieta” adquirem hábitos alimentares disfuncionais e de 20 a 25% desenvolvem transtornos. A linha entre dietas e transtornos alimentares é muito tênue, esse foi o tema do trabalho de conclusão de curso da cientista social Beatriz Klimeck: “É complicado. Na pesquisa entrevistei mulheres que viviam de dieta, às vezes pessoas muito adoecidas, que mesmo questionando os próprios comportamentos, distanciavam-se do diagnóstico”.

Na opinião de Beatriz, um dos maiores problemas na relação das pessoas com a comida vem do nutricionismo, uma linha da nutrição que reduz os alimentos apenas a nutrientes. Essa concepção, que ignora os laços afetivos, causa preocupação entre profissionais da saúde e ativistas. É o caso do Projeto de Lei 8135/14, que obriga restaurantes e lanchonetes a dispor as calorias dos alimentos. O PL afirma ter como motivação informar a população dos riscos de uma alimentação pouco saudável para combater a obesidade e suas consequências. Mas, segundo Camilla: “Colocar o valor calórico das coisas é uma faca de dois gumes, ao mesmo tempo que pode criar uma consciência nas pessoas, pode gerar paranóia para quem tem uma relação ruim com a comida.”

O principal ponto de contestação é o foco na contagem de calorias. Afinal, a caloria não é um ingrediente nocivo à saúde, mas uma unidade de medida de energia. Embora tenha uma conotação negativa associada ao ganho de peso, o consumo de calorias é essencial para a sobrevivência. O baixo valor calórico de um alimento não garante que ele seja saudável, um suco de laranja, por exemplo, é mais calórico que uma coca-cola zero, apesar de ser muito mais nutritivo. Uma proposta similar adotada no Chile, colocou rótulos triangulares informando o alto índice de açúcares, gorduras e sódio, mas também incluiu as calorias. É importante que as pessoas saibam o que elas estão consumindo, mas a caloria é um número vazio e obrigar o cliente a ter essa informação sem um contexto pode ser um retrocesso.

Dona da página Você não é o seu transtorno alimentar, Beatriz tem como principal objetivo trazer essas discussões a público. “Em Harvard eles conseguiram tirar as calorias do bandejão deles. Se não tem reivindicação de tirar, vai ficar aí. Por isso que eu acho que ocupar esse espaço é importante. Se falamos disso enquanto uma coisa coletiva, as pessoas se identificam. Se ficarmos sofrendo individualmente, vai todo mundo sofrer.” A página, que começou em 2016 e hoje tem mais de 5 mil curtidas, surgiu para aprofundar as discussões sobre o corpo. No mês passado, Beatriz criou também um canal de mesmo nome no youtube, usando o espaço como forma de  diálogo entre a academia, a militância e o público.

Transtornos alimentares são doenças psiquiátricas relacionadas com uma percepção distorcida do corpo incitada pelo medo de engordar, sendo as mais conhecidas a bulimia e a anorexia. A bulimia é caracterizada por episódios de compulsão alimentar, seguidos por um sentimento de culpa que leva o bulímico a utilizar laxantes, diuréticos e provocar vômito. O anoréxico, além de também poder apresentar comportamentos purgativos, tem como particularidade as dietas restritivas e a recusa à comida. De acordo com a American Psychiatric Association (APA), cerca de 1% da população mundial, 70 milhões de pessoas, sofrem com transtornos alimentares. Dados da Eating Disorder Coalition (EDC) e da National Association of Anorexia Nervosa and Associated Disorders (ANAD) mostram que esses transtornos têm o maior risco de mortalidade entre as doenças mentais, com pelo menos uma morte a cada hora.

A mesma pesquisa aponta que transtornos alimentares não discriminam: homens e mulheres, jovens e velhos, todas as classes sociais e econômicas são afetadas. Seja pelo estigma, ou pela concepção de que transtornos alimentares  são “coisas de mulher”, quem mais se manifesta sobre o assunto ainda são elas. O Precisamos Falar, um fórum de apoio a pessoas com transtornos, é dividido em dois grupos no facebook. O feminino tem mais de 5 mil membros, o misto tem 175 e entre eles, só 23 são homens.

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O grupo feminino é muito mais ativo, com dez vezes o número de publicações no mês.

Ainda que as redes sociais sejam plataformas importantes para a divulgação de ideias de aceitação, a popularidade de perfis que reforçam padrões de beleza contribuem para o desenvolvimento de transtornos alimentares. O Instagram é especialmente responsável por sustentar metas de perfeição inatingível. Como o aplicativo se alimenta exclusivamente de fotos, a imagem se transforma em um produto. Blogueiras fitness criam carreiras vendendo não só o visual, mas uma versão idealizada das próprias vidas. Os ângulos das fotos mostram barrigas chapadas e rostos congelados em sorrisos, mas escondem as equipes de fotógrafos, treinadores, maquiadores e marketeiros necessários para criar esse imaginário. Algumas dessas blogueiras já vendem pacotes de dietas e exercícios, prometendo fórmulas mágicas para emagrecer, mesmo sem nenhuma formação profissional. A mais famosa delas, Gabriela Pugliesi, foi denunciada por atuar ilegalmente como professora de Educação Física em fevereiro do ano passado. Ciente do efeito que pode ter nas pessoas, o Instagram passou a bloquear hashtags referentes à anorexia e à bulimia, mas isso ainda é pouco frente a uma sociedade obcecada por aparências.

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O Instagram também bloqueia termos como “ana” e “mia”, relacionados à anorexia e bulimia, respectivamente.

A busca pelo padrão de beleza explica o fascínio dos transtornos alimentares. Diferentes de outras doenças mentais, muitas pessoas ainda consideram esses transtornos desejáveis. Enxergam a anorexia, por exemplo, como algo positivo: um caminho para a perda de peso, um símbolo de autocontrole. Transtornos alimentares são os sintomas mais graves de uma doença social, que mostra poucos sinais de melhora. Para Beatriz: “Nós temos uma mentalidade de dieta, mas dieta é feita pra falhar. Se não fosse, estava tudo resolvido, não teria epidemia da obesidade. Vivemos nesse ciclo em que as listas de proibições só aumentam, agora ovo faz mal, agora o abacate é muito gorduroso. Chegamos a níveis de restrição de alimentação que a pessoa pode até sonhar com um abacate.”

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Um comentário sobre “Transtornos alimentares, um problema coletivo

  1. Importantíssimo esse post. Nós vivemos em uma cultura que incentiva a população a transtornos alimentares e também a obesidade, criando ou pessoas paranoicas com o peso ou pessoas viciadas em uma alimentação inadequada e que gera doenças graves como a hipertensão e a diabetes. Enaltecemos os magros e a perda de quilos a qualquer custo mas vendemos alimentos que nos viciam em açúcar. Falar de transtornos alimentares no Brasil ainda é um tabu. Somos um dos povos que mais valorizam a perfeição do corpo. Em contrapartida temos pessoas doentes que sequer sabem que estão doentes. Eu sofri anos da minha vida com transtorno alimentar chegando a entrar em quadro anoréxico. Perceber a minha doença e a origem dela me ajudou a trilhar um caminho árduo até que finalmente eu pudesse dizer “eu estou bem”.

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