Pauta da representatividade domina mercado cinematográfico

Nos EUA tema domina premiações, no Brasil Ancine e MinC estudam medidas para diminuir desigualdade de gênero e raça nas produções nacionais.

Por Samuel Costa.

No vídeo, quatro amigos negros gritam em um cinema americano: “é assim que os brancos sempre se sentiram!”. A euforia acontece em frente a um cartaz do lançamento mais recente da Marvel/Disney , Pantera Negra. O longa, que tem o elenco composto majoritariamente por negros, é um sucesso no mundo inteiro. Durante as suas quatro semanas de exibição ele já se consagrou como a segunda maior arrecadação da Marvel nos EUA, além de ser o segundo filme de herói com maior bilheteria da história do país, segundo o portal BoxOffice Mojo. No mercado global ele já ocupa a 15ª colocação no ranking de renda e já acumula US$ 1,07 bilhão em todos os 54 mercados em que está sendo exibido.

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“É assim que os brancos sempre se sentiram”, brinca homem negro em frente ao pôster de Pantera Negra.

A pauta da representatividade parece ter ganhado Hollywood. Além de sucessos de público como o de Pantera Negra, ou de Mulher-Maravilha (filme mais vendido do ano passado, depois de Thor – Ragnarok), a discussão sobre a presença de mulheres, negros e outras minorias no cinema dominaram as premiações deste começo de ano, como o Oscar e o Globo de Ouro. Tudo começou neste último, quando as mulheres da indústria cinematográfica americana se uniram em torno do #MeToo, movimento que pedia pelo fim do assédio sexual a mulheres, após a divulgação de denúncias de abuso que um dos maiores produtores de Hollywood, Harvey Weinstein, teria cometido. Natalie Portman, ao anunciar os indicados à categoria de melhor diretor da cerimônia, ironizou a falta de presença feminina entre os concorrentes. “E estes são todos os indicados masculinos”, disse.

No mesmo caminho, Francis McDormand, consagrada com um Oscar por sua interpretação em Três anúncios para um crime, solicitou que todas as mulheres indicadas a alguma categoria do prêmio se levantasse para que fossem aplaudidas pelo público presente na cerimônia. Enquanto isso ela dizia: “Conversem com essas mulheres depois que saírem daqui, elas têm projetos que precisam ser financiados”.

Já o diretor e roteirista Jordan Peele, de Corra!, terror psicológico protagonizado por um ator negro (Daniel Kaluuya) que vive cenas de horror com fundamentação racista, agradeceu ao público pelo seu Oscar de melhor roteiro e fez um apelo: “apoiem filmes como esse, eu deixei de escrever umas 20 vezes este roteiro por acreditar que não daria certo!”. O longa de Peele realmente pode ser considerado uma surpresa, lançado em sua primeira semana de circuito em 2,7 mil cinemas  americanos, ele é o terror de maior renda, US$ 176 milhões arrecadados no país, da Blumhouse, produtora conhecida por sucessos de bilheteria do gênero como a franquia Sobrenatural. Por aqui, o longa vendeu mais de 385 mil ingressos, estando em um circuito de porte médio, em 405 complexos de exibição.

Nenhuma mulher negra dirigiu uma produção em 2016

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“Espectadora negra destaca a importância de papéis femininos em Pantera Negra”.

No Brasil, a discussão também não passou despercebida. Durante a gestão de Débora Ivanov em 2017, a Agência Nacional do Cinema (Ancine) realizou um estudo em que foi levantado a participação de mulheres e pessoas negras na produção audiovisual no país no ano de 2016. De acordo com o estudo, cerca de 75,4% dos diretores das produções registradas na agência foram homens brancos. As mulheres brancas assinaram 19,7% e os homens negros apenas 2,1%. Nesse ano, nenhuma mulher negra dirigiu uma obra cinematográfica.

No último mês de dezembro, a ex-diretora-presidente da Ancine havia apresentado ao Comitê Gestor do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) a proposta de inserir indutores de raça e gênero nas linhas de fomento operadas pelo FSA. Se fosse aprovado, os filmes que fossem dirigidos por mulheres ou pessoas negras receberiam uma pontuação mínima durante a sua avaliação para receberem os recursos do fundo. No entanto, essa medida não passou pelo crivo do ministro da Cultura, Sergio Sá Leitão, que acreditava que essa pauta deveria ser levada para o Conselho Superior de Cinema, em Brasília, o que atrasaria a adoção da política em cerca de um ano.

Apesar disso, nesta segunda-feira, 12, o ministro anunciou o lançamento da segunda etapa do programa #AudiovisualGeraFuturo, onde ele reafirmou o compromisso com a diminuição da desigualdade racial e de gênero no mercado cinematográfico. Porém o pacote com seis editais a serem geridos pela Ancine não previam nenhum tipo de cota com esses recortes. Durante a coletiva de imprensa Sá Leitão afirmou que esta fase tem objetivo de viabilizar a produção e comercialização das obras, além de gerar mais empregos. “Nós já adotamos essas cotas nas linhas apresentadas na primeira etapa, de responsabilidade da Secretaria do Audiovisual, que tem um caráter mais inclusivo em sua atuação “. Ele ainda completou dizendo que está sendo discutida a viabilidade de inserir esses mecanismos na próxima fase do programa, que deve ser anunciada no próximo dia 30 de abril.

Para o cineasta negro, Victor Rodrigues, que dirigiu o curta Jangada, à maresia, protagonizado por uma mulher negra, a viabilização do desenvolvimento de projetos por pessoas que pertencem à classes minoritárias é importante para a mudança de perspectiva social. “Pensar a importância da representatividade no cinema hoje é pensar certa reorganização (ou desconstrução) de toda uma estrutura política, social e econômica que tem a ver com interesse de sujeitos, instituições e também do Estado”, afirmou. Ele ainda ressalta que a realização de filmes por membros de camadas mais à margem da sociedade traz novas subjetividades aos cinemas: “isso é importante porque gera representatividade. Colocando novos sujeitos em tela, atrás das câmeras, pensando novas narrativas, contemplando novas pessoas e territórios”.

O público que se vê na tela

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Mulher-Maravilha foi o filme com maior bilheteria da Warner no ano passado, com US$ 821,8 milhões arrecadados no mundo inteiro

A inclusão de personagens minoritários em papéis de destaque parece impactar, de fato, a audiência. Considerando-se, por exemplo, o universo dos quadrinhos, os heróis costumam contar nas salas de projeção com uma maioria masculina. No caso de Mulher-Maravilha, da DC Comics/Warner, essa lógica foi invertida, tendo a predominância de ingressos vendidos para mulheres nos EUA. Na semana de estreia do filme, foram cerca de 52% de bilhetes comprados por elas, contra 48% para eles.

É o que a aluna de cinema, Livia Lacorte, destacou ao ser perguntada sobre como era ver uma mulher protagonizando um filme de herói. Ela disse que conseguiu se projetar na tela e que é muito importante existir papéis como esse, em que a mulher assume características como a força e a coragem. “É, sem dúvida, um filme extremamente necessário (apesar de estar longe de ser perfeito), por também abrir caminho para outras produções do tipo”, disse. “Ela comprovou que produções protagonizadas por mulheres podem sim lucrar nas bilheterias”, completou. A estudante não está errada, a super-heroína foi a maior arrecadação da Warner no mundo em 2017, com US$821,8 milhões, ultrapassando títulos como It – A coisa, que fez US$ 700,3 milhões, e Liga da Justiça, com US$ 657,9 milhões.

O papel feminino também ganhou os olhos da estudante negra de jornalismo, Letícia Nunes, que foi duas vezes ao cinema assistir Pantera Negra. Para ela o filme contribui para uma mudança de lugar social da população negra, já que seus personagens fogem do estereótipo largamente aplicado à essa população. “Fiquei muito impressionada principalmente com as mulheres do filme, elas são independentes, fortes e fogem daquele papel da negra sofredora, que estou um pouco cansada de ver”, disse a universitária. “Ter a pessoa mais inteligente do mundo, a personagem Shuri (Letitia Wright), na pele de uma mulher negra foi maravilhoso, ainda mais pensando que ela está inserida no universo Marvel, onde tem personagens como o Tony Stark”, encerrou.

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