Transexuais e mercado de trabalho: abaixo os estereótipos!

A história profissional de transexuais que destoam do padrão socialmente imposto

Por Milena Oliveira e Vanessa Costa

Apesar do considerável avanço relacionado às questões de gênero nos últimos tempos, estereótipos, preconceitos e fetiches ainda são predominantes quando o assunto é mercado de trabalho. Medidas importantes têm sido adotadas com o objetivo de mudar tal realidade. Diante deste cenário, pessoas trans, que, mesmo diante de inúmeras dificuldades contrariam estas estatísticas, são exemplos e trabalham na promoção de oportunidades para que transexuais, assim como os demais cidadãos, possam exercer a profissão que quiserem e possuam habilidades. Afinal, não é por ser transexual que o indivíduo possui dom artístico ou inclinado para o mercado do sexo.

O guarda municipal e estudante de Serviço Social Jordhan Lessa

De ex-morador de rua a guarda municipal do Rio de Janeiro, Jordhan Lessa, 50 anos, é, atualmente, o único transexual reconhecido na sua instituição. “Fiz de tudo um pouco para me sustentar de maneira honesta e digna, fui camelô, caixa de supermercado, atendente de lanchonete, guardador de carros, aprendiz de mecânico, auxiliar de serviços gerais, gerente de máquinas de aposta e apontador de jogo do bicho, até chegar à minha atual atividade”, explica Jordhan. Servidor há dezenove anos, demonstra que, mesmo em um cenário de adversidades e permeado por estereótipos e preconceitos, é possível obter uma vida profissional bem-sucedida, ainda que vencendo obstáculos inerentes a uma sociedade que passa, paulatinamente, a discutir a questão da transexualidade.

“Eu tinha tudo para dar errado”, diz Jordhan, que parou de estudar na antiga sétima série do ensino fundamental, aos 12 anos, quando fugiu de casa após ser espancado pelo pai alcoólatra. Viveu nas ruas dos 13 aos 16 anos e foi vítima de estupro “corretivo” aos 16 anos, do qual resultou uma gravidez. O guarda municipal só contou para o filho que este era fruto de uma violência sexual quando o menino completou 21 anos, o que, segundo ele, foi o que permitiu serem ótimos amigos.

Profissional comprometido, o guarda municipal afirma: “Sou daqueles que honram o propósito da função, que é servir de maneira condizente àqueles que pagam nossos salários para serem bem atendidos, o que nem sempre é fácil”. Aprovado em quinto lugar no concurso com 22.065 inscritos no ano de 1997, como servidor de uma instituição de segurança pública, sofreu preconceito, teve sérios problemas de saúde mental e passou anos afastado do trabalho por licença médica psiquiátrica. Mas ele conta que os episódios os quais vivenciou na carreira o fortaleceram e o levaram a persistir. “Mudei o foco, ressignifiquei inúmeras questões, passei a ser grato por ter oportunidade de fazer parte da instituição à qual pertenço”. Desta mudança de paradigma em diante, muita coisa foi conquistada na vida profissional deste homem trans que completou seu processo de transição aos 46 anos.

Além de integrar a Guarda Municipal, atualmente cursa o quinto período de Serviço Social na Universidade Estácio de Sá e é autor do livro “Eu trans: a alça da bolsa, relatos de um transexual”, lançado em novembro de 2014 pela editora Metanoia.

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Jordhan Lessa lançou livro sobre sua história – Foto: Milena Oliveira

Após o lançamento da biografia, que traz na capa foto de uma época anterior ao seu processo transexualizador, divide seu tempo ainda para atuar como colaborador da Coordenadoria Especial da Diversidade Sexual (CEDS-Rio), escritor, palestrante, transativista e “coach” de desenvolvimento humano para diversidade. Profissional qualificado e consciente de seu papel social, funcional e humano, Jordhan é prova de que sua identificação de gênero não o difere dos demais profissionais.

A assessora parlamentar e estudante de Jornalismo Bárbara Aires

Segundo a estudante de Jornalismo e assessora parlamentar Bárbara Aires, 30 anos, que atua no mandato coletivo do vereador David Miranda, na Câmara Municipal do Rio, “as pessoas trans não são vistas como pessoas”. Essa afirmação transmite o preconceito que transexuais enfrentam no dia a dia, sobretudo no mercado de trabalho.

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Bárbara Aires na Câmara dos Vereadores – Foto: Milena Oliveira

Natural de São Paulo, Bárbara fugiu de casa, aos 5 anos, e foi morar nas ruas, por ser espancada pelo pai, que exigia que se comportasse como homem. Aos 16, passou a viver com um namorado, que pagava seus estudos, e, aos 18, trabalhou como “bartenderem uma casa noturna, cujo público principal era de homossexuais, vindo a perder o emprego porque os responsáveis pelo estabelecimento alegaram que os clientes não aceitariam uma funcionária como ela, que saía do local em trajes femininos. Enveredou, então, na prostituição e atuou em filmes pornôs. Mudou-se para o Rio, entre 2006 e 2007, onde ingressou na militância LGBTI (lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e intersexuais), realizando palestras e participando de congressos, ao mesmo tempo em que continuou no mercado do sexo. Em 2008, fez curso de cabeleireira em uma conhecida rede de salões de beleza, mas afirma que, em razão do preconceito, apenas conseguiu trabalhar em três salões, sendo dispensada do último após a dona descobrir que ela era trans e fazia sucesso com a clientela. Assim, passou a atender apenas em domicílio e, paralelamente, continuou na prostituição.

Em 2011, esteve na plateia do programa “Amor e Sexo”, da Rede Globo, e participou de um quadro que discutia a diferença entre travesti e transexual, vindo a ser contratada como consultora do programa de janeiro de 2012 a dezembro de 2013. Em 2015, ingressou no “Prepara, Nem” , projeto da Casa Nem que prepara pessoas LGBTI para o ENEM, e foi aprovada em Jornalismo, no mesmo ano, para as Faculdades Integradas Hélio Alonso, onde obteve bolsa filantrópica e já cursou até o quarto período. A opção por Jornalismo decorreu da vontade de ser produtora de TV, após sua experiência televisiva. Atuou, em 2016 e 2017, como consultora da série “Liberdade de Gênero”, no canal GNT e, ainda em 2017, como consultora da série “Quem sou eu? ”, do Fantástico, que tratava de questões trans.

Sua participação na militância chamou a atenção do vereador David Faria, que a convidou para integrar sua equipe, da qual faz parte desde fevereiro de 2017, efetuando a intermediação entre os movimentos LGBTI e o mandato. Ao receber currículos e solicitações de emprego, encaminha-os à Coordenadoria de Diversidade Sexual do Município do Rio de Janeiro (CEDS-Rio), responsável pelo projeto “Trans + Respeito”. Admite ter pretensão política e pretende continuar cursando Jornalismo ou mudar para a graduação de Ciências Sociais ou Políticas.

A agente social Laura Mendes, do projeto ‘Além do Arco-Íris’

Para a agente social do projeto “Além do Arco-Íris”, do grupo cultural AfroReggae, Laura Mendes, 40 anos, o preconceito contra transexuais e travestis existe no próprio meio LGBTI. “Sou uma mulher travesti. Sou símbolo de resistência contra todos os preconceitos que as minhas amigas trans passam. Antes de tudo, mais do que siglas, cores, bandeiras, somos pessoas”, destaca Laura, natural de Olinda, há vinte anos no Rio de Janeiro.

Segundo ela, parcerias do AfroReggae com empresas têm permitido inserir pessoas trans no mercado de trabalho, mas Laura esclarece ser necessária a aprovação nos processos seletivos de emprego, como ocorre com qualquer interessado.

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Laura Mendes: agente social do projeto ‘Além do Arco-Íris’ – Foto: Vanessa Costa

Egressa do sistema penitenciário, enfrentou preconceito duplo, mas “nunca se acovardou para a vida”, sendo contra a vitimização. Trabalhou em lanchonete, empresa de consulta de cheques e como copeira. Ingressou na prostituição após ser demitida de um de seus empregos. Atualmente, agente do Afroreggae, fica feliz ao ajudar outras pessoas, com suas palestras, e emociona-se ao comentar sobre uma que proferiu para alunos do ensino médio, referente a gênero. Ao final, foi abraçada e parabenizada pela turma. “Isso não tem preço”, conclui.

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