Amor Cristão: Necessidade ou Intolerância?

 

A linha tênue entre a demanda evangélica e a exclusão religiosa velada nos aplicativos de namoro

Por Beatriz Caetano, Gabriela Marçal e Gabriela Oliveira.

A tecnologia revolucionou as relações. O bate-papo, a paquera, as brigas, as declarações, o profundo e o raso, o íntimo e o devasso: tudo acontece no âmbito virtual. Desde que essa era começou, no entanto, a parte mais polêmica sempre foi a de conhecer pessoas através da internet. Será que dá pra confiar na pessoa por trás do avatar? O brasileiro parece acreditar que sim. Segundo pesquisa recente do IBOPE Inteligência, um a cada cinco usuários de internet no Brasil são adeptos dos aplicativos de relacionamento.

Para os economistas Josué Ortega e Philipp Hergovich, a crescente adesão aos aplicativos está ligada à forma como nos relacionamos como um todo na internet. A comunicação através de cliques, sem as barreiras físicas, alterou um processo básico da comunicação humana. “Nós costumávamos nos casar com pessoas a quem estávamos conectados: amigos de amigos, companheiros de escola e vizinhos”, afirma Ortega. “O namoro online mudou esse padrão, as pessoas que se encontram tendem a serem completos estranhos”, completa. Ainda assim, estamos em busca de afinidades.

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It’s a Match! (Tradução: É uma combinação!). Tela do Tinder, principal plataforma de relacionamento do Grupo Match

A tese de Ortega e Hergovich é embasada em um conceito econômico: a teoria do Ajuste. Em suma, a teoria trata de um quadro matemático descrevendo a formação de relações mutuamente benéficas ao longo do tempo. No caso das plataformas de relacionamento, a busca é eficiente: a partir de filtros de semelhança, é possível aumentar o número amostral de candidatos a um relacionamento. Essa relação, é claro, tem sua eficiência condicionada ao número de semelhanças entre duas pessoas.

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Divulgação: Divino Amor.

Foi na busca por compatibilidade que o Grupo Match, empresa que detém os direitos sobre sites como o Divino Amor, viu uma oportunidade. Para o representante do grupo, Arnaldo Santos, a demanda por um “filtro” religioso veio dos próprios usuários. “Vimos uma necessidade cada vez maior de segmentar o consumidor por religião, mas a demanda era principalmente por parte dos evangélicos”, disse. “É complicado crer em alguma coisa e namorar alguém que crê em algo totalmente diferente. É muito mais fácil quando ambos seguem à mesma religião”.

O poder de escolha é legítimo, mas até que ponto restringir a busca por um parceiro é apenas um ato saudável? Não se estaria mascarando um certo tipo de preconceito?

O artigo quinto da Constituição assegura a todos os brasileiros o “livre exercício de cultos religiosos e tendo garantida a proteção aos seus locais de culto e às suas liturgias”. Entretanto, de acordo com dados da Secretaria dos Direitos Humanos, ligada ao Ministério da Justiça, os casos de intolerância religiosa aumentam a cada ano. Conforme dados do Disque 100, do Ministério dos Direitos Humanos, de 2015 à junho de 2017, foram registradas 1484 denúncias, dentre elas de agressões físicas e verbais e destruição de templos.

Contrariando a expectativa de que o passar dos anos trariam a ampliação da liberdade de pensamento e de expressão, os crimes de ódio de fundo religioso infestam as capas dos jornais. Segundo o antropólogo da Universidade de São Paulo Vagner Gonçalves da Silva, a crescente intolerância religiosa se dá justamente porque algumas igrejas evangélicas, especialmente as neopentecostais, têm como princípio fundamental o combate a outras manifestações religiosas.

As religiões de matriz africana são as mais afetadas, não por serem de fato uma ameaça, afinal contemplam apenas 3% da população brasileira, mas justamente por representarem o elo mais fraco da corrente. “Com a Igreja Católica não se brinca, ela é muito forte. As religiões afro-brasileiras têm sido o cachorro chutado da história do Brasil.”, afirma o professor.

O clima de rivalidade existe até mesmo entre as mais diversas vertentes do cristianismo. Segundo Santos, no aplicativo Divino Amor é possível especificar no cadastro de qual denominação da Igreja Evangélica a pessoa faz parte, uma exigência apresentada por parte dos usuários. Além da rejeição a outras religiões, outro aspecto importante que leva os evangélicos a quererem namorar apenas evangélicos, são os dogmas que envolvem a vida amorosa do fiel.

Na maioria dessas religiões o sexo, e em alguns casos até o beijo na boca, só é permitido depois do casamento, coisa que não é comum entre os não praticantes. Além disso, a mulher é frequentemente colocada numa posição de submissão ao marido, sob a imposição de padrões comportamentais pouco compatíveis com o perfil da mulher brasileira moderna, que está em processo de emancipação crescente, respaldada pelas conquistas do movimento feminista.

A exemplo disso, a pastora Sarah Sheeva, filha da cantora Baby do Brasil, que afirma em entrevistas não beijar há mais de dez anos, promove o “Culto das Princesas”, em que orienta meninas adolescentes a seguirem doze passos para tornarem-se dignas de conquistar um bom marido.

O público do Divino Amor tem, majoritariamente, entre 25 e 45 anos. A sua principal preocupação, no entanto, não é a idade. Segundo Arnaldo, a comunidade evangélica tem muita força no site e eles estão em busca de um relacionamento duradouro com outros cristãos. “Você sempre está mais satisfeito com pessoas que tem os mesmos gostos que você, isso também é relevante em outras plataformas do grupo”, afirma. A empresa também detém os direitos de marcas como Tinder e ParPerfeito.

É importante lembrar que a compatibilidade não é tudo na hora de escolher um parceiro. Em uma pesquisa feita por Ortega e Hergovich em 2017, observa-se que o pico dos matrimônios miscigenados na Inglaterra aconteceu após a criação do Tinder, em 2012 – chegando a 17% do total no país em 2014. As diferenças, étnicas, religiosas ou sociais, estão listadas pela dupla como fator para a longevidade das relações. O segmento específico para evangélicos, para Arnaldo, é apenas uma vantagem competitiva: “você pode se apaixonar por alguém que não tem a mesma religião, mas é interessante que exista uma plataforma com essa opção disponível.”.

Uma nova geração do cristianismo parece estar, aos poucos, se dando conta disso e se abrindo para novas possibilidades. Evangélica praticante, a estudante de engenharia Aline Costa, 22 anos, é usuária de aplicativos de relacionamento generalizados como o Tinder e o Happn e diz não se importar tanto com a religião dos pretendentes. “Confesso que rapazes que postam fotos mostrando demais o corpo me incomodam um pouco. Acho importante que haja respeito. Mas nem pergunto a religião das pessoas com quem converso, isso não é uma questão”. O que a incomoda nos aplicativos evangélicos, segundo Aline, é justamente o fato de seus usuários serem um pouco mais velhos e terem uma cabeça mais “conservadora”

Para o Grupo Match, no entanto, o Divino Amor é apenas um começo. A empresa já estuda a criação de plataformas alternativas para outros devotos. Pelo jeito ainda há gente suficiente querendo teclar só com quem pensa igualzinho a si.

 

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